Por que a gente ouve sofrência quando está sofrendo?
Dar play na música mais triste justo no dia mais triste parece pedir bis pra dor. A ciência sugere outra coisa: companhia. Uma carta ao lado B do coração, de Lupicínio Rodrigues a Marília Mendonça.
Querida sofrência,
A gente se conhece faz tempo, mas nunca tinha te escrito. Então lá vai. Lembra daquela terça? Seis e pouco da tarde, ônibus lotado, testa encostada no vidro. O namoro tinha acabado no domingo, por mensagem, e o polegar já sabia o caminho até você sem olhar pra tela. Tocou “Infiel”, da Marília Mendonça. Depois tocou de novo. Lá pela décima quarta vez, a moça do banco do lado já devia estar cantando por dentro, de tanto que o fone vazava. Ninguém estranhou alguém chorar baixinho com a música mais triste do celular no dia mais triste do mês. Em ônibus, todo mundo já foi essa pessoa.
Quem vê de fora acha que é vontade de sofrer em dobro: tá triste e escolhe justo a música que entristece? A gente desconfia que não. Esta carta é pra te agradecer e, de quebra, te contar o que andaram descobrindo sobre você.
Você tem uma árvore genealógica comprida
O nome “sofrência” pegou nos anos 2010, quando o arrocha e o sertanejo resolveram assumir de vez que sofrer também dava música de sucesso. Mas a sua família é antiga.
Teve o gaúcho Lupicínio Rodrigues, que nos anos 1940 e 1950 transformou levar um fora em canção de mestre, com “Nervos de Aço” e “Vingança”, sucesso na voz de Linda Batista em 1951. Ele é tão associado à dor de cotovelo, aquela de quem chora com o braço apoiado no balcão do bar, que muita gente jura que foi ele quem inventou a expressão. Teve o samba-canção das boates, com Dolores Duran e Maysa, em que o mundo desabava em tom menor. Teve o brega de Waldick Soriano e de Reginaldo Rossi, que contou a vida inteira pra um garçom em “Garçom”.
E aí chegou você, com nome próprio. Pablo, o cantor de arrocha baiano, virou o rei da sofrência. Henrique & Juliano lotaram shows pelo país, com a plateia cantando dor de amor a plenos pulmões. E Marília Mendonça, que dividiu com a dupla “A Flor e o Beija-Flor”, mudou o ponto de vista. Ela começou adolescente, compondo pra outros artistas, e com ela a sofrência ganhou voz de mulher: a que sofre, mas também bate a porta, ri da própria desgraça e aconselha a amiga na mesa do bar. Quando ela morreu num acidente de avião, em novembro de 2021, aos 26 anos, o Brasil cantou junto pra se despedir. Foi um luto coletivo com trilha sonora própria. Talvez seja isso que você faz de melhor: reunir gente pra sentir junto.
Andaram te estudando, e você saiu bem na foto
Os pesquisadores têm um nome pra esse enigma: paradoxo da tristeza na música. Se ninguém gosta de ficar triste, por que tanta gente procura a canção que entristece?
Em 2014, Liila Taruffi e Stefan Koelsch, da Universidade Livre de Berlim, aplicaram um questionário on-line a 772 pessoas. A emoção que elas mais relataram ao ouvir música triste nem era a tristeza: era a nostalgia, seguida de uma espécie de paz e de ternura. E sabiam dizer o que ganhavam com isso: espaço pra imaginar, ajuda pra lidar com as próprias emoções, empatia e uma tristeza sem consequências na vida real. A música dói, mas não termina namoro, não demite ninguém e não manda mensagem às três da manhã. Um detalhe que diz muito: o momento em que as pessoas mais te procuravam era quando estavam angustiadas ou se sentindo sozinhas.
Em 2015, Matthew Sachs, Antonio Damasio e Assal Habibi, da Universidade do Sul da Califórnia, juntaram numa revisão o que se sabia até ali e chegaram a um resumo parecido. A música triste dá prazer quando a gente sente que ela não ameaça, quando ela é bonita, quando ajuda a regular o humor e quando desperta empatia e lembranças. E o efeito muda de pessoa pra pessoa e de momento pra momento: a mesma faixa que consola numa terça pode pesar numa sexta.
Annemieke van den Tol e Jane Edwards foram mais diretas: em 2013, perguntaram a 65 adultos que escutam música triste estando tristes por que fazem isso. Uma das estratégias que apareceram foi a conexão: escolher a música que combina com o que a pessoa está sentindo, em vez de uma que tente animar à força. E, entre as funções, estavam a da música como amiga, que entende e consola, e a de lembrar que aquela dor não é só sua: muita gente já passou pela mesma coisa, e alguém transformou aquilo em canção. Você não resolve nada, sofrência. Você faz companhia.
O nó na garganta tem nome
Aristóteles, na Poética, já falava de catarse: a plateia da tragédia sente pena e medo pelo herói e sai do teatro com a alma lavada. O que ele quis dizer exatamente ainda rende briga entre especialistas, mas a ideia pegou. Chorar a dor de outra pessoa, num lugar seguro, ajuda a dar forma à nossa.
E tem aquele momento que você conhece bem: a música cresce, o peito esquenta, o olho enche e a pele arrepia, tudo ao mesmo tempo. O antropólogo Alan Fiske, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, e os psicólogos Beate Seibt e Thomas Schubert propuseram um nome pra essa emoção: kama muta, do sânscrito, algo como “movido pelo amor”. No português de todo dia, é o “fiquei tocado”. Pela proposta deles, ela aparece quando a gente sente, de repente, uma proximidade que se intensifica, um pertencimento. A música que diz o que a gente não conseguia dizer faz exatamente isso: por três minutos e pouco, alguém entende.
Tem ainda uma ideia mais ousada, do musicólogo David Huron, da Universidade Estadual de Ohio. Em 2011, ele propôs que a tristeza, mesmo a de faz de conta que a música provoca, poderia levar o corpo a liberar prolactina, um hormônio que ele associa a um efeito de consolo. Seria receber o colo sem precisar da perda. É uma hipótese bonita, mas, quando foi posta à prova, não se confirmou: num experimento publicado em 2021, com o próprio Huron entre os autores, a prolactina no sangue de 39 voluntários não subiu com a música triste, nem acompanhou o prazer de ouvi-la. Até agora, o placar é este: uma hipótese, com um teste contra.
Quando a companhia vira poço
Agora vem a parte difícil da carta. Você nem sempre ajuda.
Em 2015, os pesquisadores Sandra Garrido e Emery Schubert, da Austrália, mediram o humor de 335 universitários antes e depois de ouvirem uma música triste escolhida por eles mesmos. Na média, o humor piorou, com aumento nos sintomas de depressão medidos logo depois. Os autores esperavam ver isso só em quem tem tendência a ruminar, aquele jeito de voltar mil vezes ao que dói sem sair do lugar (o recorte nº 004 conta mais). Não foi assim: a piora apareceu, parecida, em quem rumina e em quem não rumina. Pra muita gente, você é companhia. Mas, num dia ruim, também pode virar trilha sonora do mesmo pensamento girando em círculo.
Isso não faz de você uma vilã. Só mostra que a mesma música pode ser colo ou poço, dependendo de quem ouve, de como e por quanto tempo. Na prática, é a diferença entre chorar junto e afundar sozinho.
Chorar junto ou afundar sozinho?
Repare no depois. Acabou a playlist, você está mais leve ou mais pesado? Música que consola costuma deixar espaço pra outra coisa.
Repare na direção. A música te empurra pra fora, pra ligar pra alguém ou dar uma volta, ou te tranca no quarto com a mesma cena em repeat?
Divida o fone. Sofrência em mesa de bar, com os amigos desafinando junto, é outra música.
Se a trilha triste virou a única há semanas e a tristeza não desgruda, talvez o recado não seja trocar de música, e sim conversar com alguém. O recorte nº 005 ajuda no primeiro passo.
Um combinado entre a gente
Então fica assim, sofrência. Você continua chegando na hora certa: no ônibus, no carro parado no sinal, no fim da festa, quando alguém pede pro DJ tocar aquela. Continua dizendo o que a gente não consegue dizer e lembrando que tem mais gente no mesmo barco, cantando alto e desafinado. Em troca, a gente promete prestar atenção. No dia em que você deixar de ser companhia e virar poço, a gente tira o fone, abre a janela e liga pra alguém. Você vai entender. Você entende tudo.
Com carinho, e com o fone ainda no ouvido,
a gente do Recortes Mentais
P.S.: Repara que não tem um verso seu nesta carta. Foi de propósito: você soa bem melhor na voz de quem canta (e na nossa, desafinada, no carro).