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Caderno Filosofia de PadariaRecorte nº 014

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Ficar sem fazer nada é tão difícil assim?

Pascal já desconfiava disso no século 17, e um experimento de 2014 deu um susto: muita gente preferiu levar um choque a passar 15 minutos a sós com os próprios pensamentos. Uma crônica de balcão sobre o tédio, o celular e o direito ao ócio.

o pingado esfriou. ninguém reparou.

Na padaria da esquina, às sete e quarenta da manhã, o pão na chapa leva uns quatro minutos. É um tempo que não serve pra nada: curto demais pra começar alguma coisa, comprido demais pra ficar parado. Repara no balcão. A moça de uniforme de farmácia rola o feed. O rapaz de mochila ouve um áudio com o celular colado na orelha. Você não tinha nada pra ver e já está com o telefone na mão, sem lembrar quando decidiu pegar. O polegar chegou antes da vontade.

Só um senhor de boné, lá na ponta, segura o pingado com as duas mãos e olha a rua. Não espera ninguém. Não parece entediado nem iluminado. Está só olhando. E aquilo dá um pouco de inveja e um pouco de aflição, nessa ordem.

O problema, segundo Pascal, cabe num quarto

O matemático e filósofo francês Blaise Pascal morreu em 1662 sem terminar o livro que vinha anotando aos pedaços. Os fragmentos saíram em 1670, com o nome de Pensamentos. Num deles, Pascal observa a agitação do seu tempo (as intrigas da corte, as guerras, as caçadas, os riscos que todo mundo corria por vontade própria) e chega a uma conclusão que não envelheceu:

Toda a infelicidade dos homens vem de uma só coisa, que é não saber ficar em repouso num quarto.

— Blaise Pascal, Pensamentos (fragmento 139)

O exemplo preferido dele é o caçador. Dê a lebre de presente a quem passou o dia correndo atrás dela, diz Pascal, e o caçador não vai querer. O que ele quer é a caçada, o barulho, a correria que não deixa espaço pra pensar na própria vida. O nome que Pascal dá a isso é divertissement, divertimento, no sentido antigo da palavra: desviar. A gente se diverte pra se desviar de si.

Ele chegava a esse diagnóstico por razões religiosas, e ninguém precisa concordar com elas pra se reconhecer no balcão. A caçada mudou de formato e cabe no bolso. O quarto continua difícil.

Quinze minutos, uma cadeira e um botão

Em 2014, mais de três séculos depois, uma equipe liderada pelo psicólogo Timothy Wilson, da Universidade da Virgínia, publicou na revista Science um conjunto de 11 estudos com uma instrução simples. O voluntário guardava tudo, celular e caneta inclusive, sentava numa sala sem enfeite e passava de 6 a 15 minutos se distraindo com os próprios pensamentos. As únicas regras: continuar sentado e não dormir.

Parece descanso. Não foi. A maioria disse que a cabeça ficou vagando, mais da metade achou difícil se concentrar e, em média, ninguém se divertiu muito: quase metade deu ao prazer da experiência uma nota no meio da escala ou abaixo. Quando o teste foi feito em casa, 32% admitiram ter trapaceado: espiaram o celular, puseram uma música, levantaram da cadeira. E não era coisa de universitário grudado na tela. Numa amostra recrutada numa feira e numa igreja, com gente de 18 a 77 anos, o resultado foi parecido, e o gosto por ficar pensando não teve relação com a idade nem com o quanto a pessoa usava celular ou redes sociais.

Aí veio o estudo do botão. Antes, os voluntários experimentaram um choque elétrico e disseram quanto pagariam pra não sentir aquilo de novo. Depois ficaram 15 minutos na sala, com um botão que dava o mesmo choque, se quisessem. Contando só quem tinha dito que pagaria pra evitar o choque, 12 de 18 homens (67%) e 6 de 24 mulheres (25%) apertaram o botão pelo menos uma vez. Um participante, bem fora da curva, apertou 190 vezes.

Antes de concluir que a humanidade perdeu o juízo, as ressalvas. As porcentagens do choque vêm de só 42 pessoas, num laboratório universitário, que é um lugar esquisito por natureza. A diferença entre homens e mulheres, dizem os próprios autores, provavelmente tem a ver com o gosto por sensações fortes, mais comum entre eles. Isso não prova que a gente prefere dor a pensamento. O achado é mais modesto e mais incômodo: sem nada pra fazer, muita gente topa qualquer coisa, até algo desagradável. O artigo ainda lembra uma pesquisa americana em que 83% das pessoas disseram não ter passado nem um minuto do dia anterior só relaxando ou pensando.

Tédio, em definição de guardanapo

O tédio parece óbvio até alguém tentar defini-lo. Em 2012, o psicólogo John Eastwood e colegas, no Canadá, propuseram uma definição que cabe num guardanapo: tédio é a experiência desagradável de querer, mas não conseguir, se envolver numa atividade que satisfaça. É uma atenção que levanta voo e não acha onde pousar. Os autores também notaram um detalhe que todo mundo reconhece: a gente quase sempre culpa o ambiente. A reunião é chata, a fila é chata, o domingo é chato. Às vezes é mesmo. Às vezes é a atenção que está sem pouso.

Repara que isso é diferente de não fazer nada. O senhor do pingado não está entediado: a atenção dele pousou na rua. O tédio é o intervalo agoniado entre largar uma coisa e achar outra, e o celular é imbatível justamente aí, porque elimina o intervalo. A atenção nunca fica sem pouso. Em compensação, nunca aprende a pousar sozinha.

A cabeça não desliga quando a gente para

Tem uma ironia nessa história. Em 2001, o neurocientista Marcus Raichle e colegas descreveram um conjunto de regiões do cérebro que ficam mais ativas quando a pessoa não está fazendo tarefa nenhuma, e que se aquietam quando ela se concentra em alguma coisa lá fora. O nome que deram a esse estado, modo padrão, batizou o que hoje se chama rede de modo padrão. Pesquisas posteriores ligaram essa rede ao devaneio, às lembranças, à imaginação do futuro e aos pensamentos sobre os outros e sobre si. Ou seja: quando a gente “não faz nada”, o cérebro faz um bocado. Nem sempre é coisa boa (o devaneio às vezes desanda em ruminação, como conta o recorte nº 004), mas está longe de ser desperdício.

Então o tédio serve pra alguma coisa? Em 2014, as pesquisadoras britânicas Sandi Mann e Rebekah Cadman aplicaram um teste clássico de inventividade: listar usos criativos pra um par de copinhos de isopor. Antes, parte dos voluntários passou 15 minutos copiando números de uma lista telefônica, tarefa de uma chatice exemplar. Esse grupo teve mais ideias do que o que foi direto pro teste. Num segundo experimento, quem só lia a lista, sem nem copiar, se saiu ainda melhor em parte das medidas. A explicação proposta é o devaneio: entediada, a cabeça sai passeando e volta com coisas que não estavam no roteiro.

É um achado simpático, com amostras pequenas e um efeito que ainda pede mais testes. Vale como pista, não como método. Até porque transformar o tédio em ferramenta de produtividade seria a coisa mais século 21 do mundo.

Do elogio do ócio ao ócio com meta

Em 1932, o filósofo Bertrand Russell publicou um ensaio com título de provocação, In Praise of Idleness, algo como “elogio do ócio”. A tese, resumida: a crença de que trabalhar é uma virtude em si faz um estrago enorme, e uma sociedade organizada com juízo poderia trabalhar umas quatro horas por dia e dividir o tempo livre entre todo mundo. Elogio da preguiça, nem de longe: Russell queria que o descanso deixasse de ser luxo de quem é rico.

Quase oitenta anos depois, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, radicado na Alemanha, escreveu Sociedade do cansaço e mudou o problema de lugar. Pra ele, a gente já não precisa de patrão pra se explorar: dá conta sozinho, com metas, aplicativos e a sensação de que todo minuto parado é minuto perdido. Han recupera uma imagem do pensador Walter Benjamin, a do tédio como um pássaro de sonho que choca o ovo da experiência, e pergunta onde esse pássaro vai fazer ninho num mundo que nunca fica em silêncio.

Por aqui, a expressão que pegou foi “ócio criativo”, do livro de entrevistas do sociólogo italiano Domenico De Masi. E a gente deu um jeito de transformar até isso em tarefa, com horário na agenda e expectativa de resultado. O quarto de Pascal, o ócio de Russell e o pingado do senhor da padaria não prometem nada. Talvez por isso façam tão bem quando acontecem.

O homem que fotografa a luz entre as folhas

Perfect Days, de Wim Wenders (2023), é quase só isso: um homem e os dias dele. Hirayama (Kōji Yakusho, premiado como melhor ator em Cannes pelo papel) limpa banheiros públicos em Tóquio. Acorda com o som de alguém varrendo a rua, rega as mudinhas que cultiva em casa, compra um café em lata na máquina da calçada e vai pro trabalho ouvindo fitas cassete: The Animals, Patti Smith, Lou Reed (o título do filme vem de uma canção dele). No almoço, senta num banco debaixo das árvores e fotografa, com uma pequena câmera de filme, a luz que passa entre as folhas. À noite, lê até o sono chegar. No dia seguinte, tudo de novo, quase igual.

Hirayama trabalha, e com capricho, então não é bem um filme sobre não fazer nada. É sobre uma atenção que sabe pousar. Ele não preenche os intervalos do dia; mora neles. E Wenders não vende aquela vida como receita de felicidade: deixa no ar umas pistas de que a calma de Hirayama tem história e tem custo. Mesmo assim, muita gente sai da sessão com vontade de olhar pela janela. Os japoneses têm uma palavra pra luz que atravessa as folhas, komorebi, e o filme faz questão de ensiná-la a quem assiste.

Cinco minutos de janela

Escolha uma janela qualquer: a da sala, a do ônibus, a da padaria. Deixe o celular em outro cômodo ou no fundo da bolsa. Durante cinco minutos, só olhe, sem meta, sem podcast e sem tentar meditar direito. Se a cabeça fugir pra lista de tarefas, tudo bem: volte pra janela quando lembrar. Se bater tédio, ótimo: ele faz parte do exercício. Depois, anote no caderno uma coisa que apareceu, lá fora ou aí dentro.

Um cuidado: pra quem atravessa uma fase pesada, ficar a sós com a cabeça pode trazer sempre os mesmos pensamentos ruins. Aí não é falta de treino, e companhia ajuda mais do que janela, seja de alguém de confiança, seja de um profissional (o recorte nº 005 explica como começar uma terapia).


O pão na chapa chegou. Você pode comer de olho no celular, e ninguém vai te julgar, muito menos este caderno. Mas, se um dia der vontade, experimenta a ponta do balcão. Segura o pingado com as duas mãos e olha a rua pelo tempo de um pão na chapa. Provavelmente não vai acontecer nada. Ótimo.

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