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Caderno Psicologia de BolsoRecorte nº 004

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Por que a gente ensaia discussão no chuveiro?

A resposta perfeita sempre chega tarde, de preferência com xampu no cabelo. O que a psicologia sabe sobre ruminação, devaneio e um jeito menos cruel de conversar com a gente mesmo.

  • leitura de 2 cafés (8 minutos)
  • Série Dicionário da Cabeça
  • 11 fontes
réplica perfeita, catorze horas atrasada

A discussão foi ontem, no fim do almoço de domingo, entre a sobremesa e o cafezinho, e você perdeu. Não perdeu feio, mas perdeu: ficou em silêncio quando devia ter falado, ou falou a coisa certa no tom errado. Hoje de manhã, debaixo do chuveiro, chega a revanche. Você retoma a conversa do começo e, desta vez, a frase sai redonda. A outra pessoa gagueja. Tem plateia, tem trilha sonora, tem até aquela pausa dramática antes da réplica final, tão perfeita que dá vontade de se aplaudir com a mão cheia de xampu. A água esfria antes de o debate acabar.

Aí você fecha o registro, se enxuga e percebe que não ganhou nada. A outra pessoa nem sabe que teve segundo turno.

A resposta que só chega no pé da escada

Se isso te consola, gente muito ilustre passou pelo mesmo vexame. No Paradoxo sobre o comediante, escrito a partir de 1773 e publicado só em 1830, o filósofo francês Denis Diderot conta que, num jantar na casa do banqueiro Jacques Necker, o escritor Marmontel lhe fez um comentário irônico que o deixou sem fala. A explicação que Diderot deu pra própria mudez virou expressão:

…perd la tête et ne se retrouve qu’au bas de l’escalier.

— Denis Diderot, Paradoxe sur le comédien

O homem sensível, diz ele, fica tão absorvido pelo que lhe jogam na cara que perde a cabeça e só volta a si no pé da escada, já indo embora. Daí o esprit de l’escalier, o espírito da escada: a resposta brilhante que chega tarde demais. Os alemães têm uma palavra parecida, Treppenwitz, a piada da escada. E o melhor é que Diderot fez o que todo mundo faz no banho, só que por escrito: logo depois de contar a história, ele escreve a réplica que um sujeito mais frio teria dado a Marmontel. Venceu a discussão no papel, anos depois, para leitores que nem tinham nascido.

A televisão também adora o tema. Num episódio de Seinfeld de 1997, “The Comeback”, George Costanza leva uma alfinetada numa reunião enquanto ataca uma bandeja de camarão, não acha resposta e só bem mais tarde, dirigindo, inventa a réplica que julga genial. Fica tão obcecado que pega um avião até Akron, em Ohio, só pra recriar a cena e encaixar a frase. Como termina, não conto. Mas é Seinfeld, então você imagina.

Ruminar ou refletir?

Ruminação, no nosso Dicionário da Cabeça: voltar mil vezes, de forma passiva, ao que fez a gente sofrer e às causas e consequências desse sofrimento, sem chegar a lugar nenhum. O nome vem dos bois e das vacas, que mastigam outra vez o que já engoliram. A versão técnica dessa definição vem da psicóloga Susan Nolen-Hoeksema, que passou a carreira estudando o assunto. Numa revisão de 2008, assinada com Blair Wisco e Sonja Lyubomirsky, ela reúne décadas de achados: a ruminação aparece associada a episódios de depressão mais longos e intensos, atrapalha a resolução de problemas e pode até cansar as pessoas em volta, que já sabem a história de cor.

Mas pensar no que aconteceu nem sempre é ruim. Em 1999, os psicólogos Paul Trapnell e Jennifer Campbell propuseram separar duas maneiras de prestar atenção em si. A ruminação é movida por ameaça, perda e injustiça: a cabeça volta ao assunto porque ele dói. A reflexão é movida por curiosidade: a cabeça volta ao assunto porque quer entender. No dia a dia, dá pra perceber a diferença pela pergunta que está tocando aí dentro. “Como ela teve coragem de me dizer aquilo?” gira e não sai do lugar. “Por que aquilo me pegou tanto?” já abre uma porta.

Aqui entre nós, isso ajuda a entender o chuveiro. A revanche do banho tem pouco a ver com convencer a outra pessoa, que nem está lá. Tem mais a ver com consertar a imagem que ficou de você naquele momento: a pessoa que travou e saiu menor da conversa. A gente reencena a briga pra se reencontrar nela.

Por que logo no chuveiro?

Em 2010, Matthew Killingsworth e Daniel Gilbert, de Harvard, criaram um aplicativo de iPhone que, em horários aleatórios, perguntava a cerca de 2.250 adultos o que estavam fazendo, como estavam se sentindo e se estavam pensando no que faziam. Em 46,9% das respostas, a cabeça estava em outro lugar. O devaneio apareceu em pelo menos 30% das amostras de todas as atividades, com uma única exceção (segundo os autores, o sexo). E, em média, as pessoas estavam menos felizes nos momentos em que a mente vagava. O título do artigo não deixa dúvida: uma mente que vagueia é uma mente infeliz.

Agora, o tamanho da evidência. É um estudo de correlação, feito com quem tinha iPhone em 2010. As análises dos autores apontam que o devaneio vinha antes do mau humor, mas ainda se discute o quanto um causa o outro.

Mesmo com essa ressalva, dá pra entender por que o chuveiro é o cenário ideal pra mente sair passeando. Tomar banho é uma tarefa automática, que o corpo faz quase sozinho, sem tela e sem ninguém interrompendo. Com atenção sobrando, a cabeça vai atrás do que ficou pendente, e uma discussão mal resolvida é o assunto pendente por excelência.

Nem todo devaneio é vilão, porém. Em 2012, Benjamin Baird, Jonathan Schooler e colegas pediram a voluntários que inventassem usos incomuns pra objetos comuns. Entre uma rodada e outra, quem fez uma tarefa fácil e monótona, daquelas que deixam a mente vagar, melhorou mais nos problemas já vistos do que quem fez uma tarefa exigente, quem ficou em repouso e quem passou direto, sem intervalo. É um achado bonito, e ajuda a explicar a fama do chuveiro como fábrica de ideias. Mas é um estudo só, e tentativas posteriores de repetir o achado, como as de Bridget Smeekens e Michael Kane em 2016, não encontraram a mesma ligação entre devaneio e criatividade. Por enquanto, é pista, não lei. Além disso, o chuveiro não escolhe o que incuba: tanto pode chocar a solução daquele problema do trabalho quanto chocar, pela décima vez, a mesma frase atravessada do seu cunhado.

Falar consigo pelo próprio nome

Uma das ferramentas mais simples pra esse tipo de enrosco, e das mais estudadas nos últimos anos, vem do psicólogo Ethan Kross. Numa série de experimentos publicada em 2014, ele e colegas colocaram voluntários diante de situações estressantes, como fazer um discurso com pouquíssimo tempo de preparo. Uma parte pensava nos próprios sentimentos em primeira pessoa (“por que eu estou tão nervoso?”). A outra usava o próprio nome ou a terceira pessoa (“por que a Ana está tão nervosa?”). Esse segundo grupo se saiu melhor na avaliação de observadores, mostrou menos aflição e ruminou menos depois.

Kross chama isso de autodistanciamento e conta a história toda no livro A voz na sua cabeça. A lógica é a mesma do conselho que a gente dá aos amigos: quando a briga é de outra pessoa, você enxerga com uma clareza que nunca aparece quando a briga é sua. Usar o próprio nome é um jeito barato de sair um pouco de dentro da cena e assistir de fora. Parece coisa de personagem falando sozinho, e é um pouco mesmo. A pesquisa ainda é recente e feita em boa parte com universitários, mas os resultados têm se repetido em diferentes experimentos.

Do chuveiro pro papel

Se a mesma discussão volta todo dia, ela pode ganhar um lugar menos molhado. Escrever sobre o que incomoda é tema de uma longa linha de pesquisa, aberta pelo psicólogo James Pennebaker nos anos 1980. Uma meta-análise de 2006, de Joanne Frattaroli, encontrou efeitos pequenos, mas positivos. Não é milagre. Só que o papel tem uma vantagem sobre o azulejo: o que já está anotado não precisa ser repetido de cabeça pra não ser esquecido.

Outra técnica, mais antiga do que parece, é a hora da preocupação. Em 1983, Thomas Borkovec e colegas testaram com pessoas que se preocupavam demais um combinado simples: reservar meia hora por dia, sempre no mesmo horário e no mesmo lugar, pra se preocupar à vontade. Fora desse horário, quando o pensamento chegava, a pessoa anotava e adiava pro encontro marcado. Depois de quatro semanas, os participantes relataram menos tempo de preocupação do que quem não recebeu a instrução. Foram dois experimentos pequenos, com universitários, mas a ideia ficou e hoje aparece em abordagens de terapia cognitivo-comportamental.

No próximo banho

Repare na pergunta. Se ela gira em “como ele teve coragem”, troque por “por que isso me pegou tanto”.

Use o seu nome. “Ana, o que você quer dessa conversa?” Ser ouvida, um pedido de desculpas, mudar um combinado ou só ganhar?

Ensaie a abertura, não a vitória. Se ainda vale ter a conversa de verdade, prepare a primeira frase. A última, ninguém controla.

Leve pro papel. Se a briga volta todo dia, escreva tudo e marque uma hora pra ela.

Quando a discussão não sai do banho

Ensaiar uma conversa difícil de vez em quando é humano, e às vezes é até útil. Mas, se o pensamento repetitivo começa a roubar o sono, ocupar boa parte do dia por semanas ou vir junto com tristeza, angústia ou ansiedade que não dão trégua, vale conversar com um psicólogo ou psiquiatra. A ruminação é um tema central em várias abordagens de terapia, e há jeitos de trabalhar com ela que não dependem de força de vontade. No SUS, a porta de entrada é a Unidade Básica de Saúde.


E, se amanhã a discussão voltar no banho, tudo bem. Deixa ela falar um pouco, ensaboa com calma e pergunta, pelo seu nome, o que você quer de verdade daquela conversa. Às vezes a resposta é conversar com a outra pessoa, fora do box. Às vezes é só um pouco de silêncio, e um banho que dure o tempo de um banho.

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