Rir pra não chorar: o que Chaplin sabia sobre o humor como defesa
O vagabundo de chapéu-coco nasceu de uma infância de pobreza e abandono. A psicologia tem nome pro que Chaplin fez com isso, e a gente fica com a pergunta: o seu humor te protege ou te esconde?
Dez e catorze da noite, grupo da família. Sua irmã manda ali a foto do exame do seu pai: vai precisar operar, nada de urgência, mas vai. Três minutos sem ninguém digitar. Aí o tio que nunca escreve nada solta: “Pronto, agora ele tem atestado pra não lavar louça no Natal.” Alguém responde “kkkkk”. Outro manda um áudio rindo. E, de repente, todo mundo está combinando quem leva o pai aos exames do pré-operatório.
Ninguém ali achou graça na cirurgia. Acharam graça no tio, que deu um jeito de dizer “tô com medo, mas tô aqui” sem usar nenhuma dessas palavras. A notícia continuava lá, só que agora dava pra carregar a várias mãos.
Em 2020, a gente postou no Instagram uma frase que parecia feita pra essa cena, assinada por Charles Chaplin:
Se tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades, teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando...
— atribuída a Charles Chaplin
Agora, revisitando o caderno, a gente voltou pra conferir a fita que prendia aquele recorte. Estava meio solta.
A frase é ótima. O problema é a assinatura
Ela roda a internet brasileira há anos, em versões um pouco diferentes (às vezes continua com um palhaço e uma plateia que sorria), quase sempre em nome de Chaplin. Fomos atrás da origem pra este recorte e não achamos. Ninguém aponta em que filme, livro, entrevista ou carta ela estaria. Também não está na página de citações do site oficial dele, que informa a fonte de cada frase. A gente não encontrou nem uma versão em inglês, o que é no mínimo curioso pra um londrino que passou boa parte da vida em Hollywood. Até os sites de frases discordam entre si: uns assinam Chaplin, outros avisam que a atribuição está errada e dão o crédito a outra pessoa.
Então fica combinado: até alguém aparecer com a fonte, ela segue no caderno como “atribuída a Chaplin”, com um ponto de interrogação a lápis. E isso não tira a graça dela. A ideia de dizer verdades brincando é bem mais velha que o cinema. O poeta romano Horácio, há uns dois mil anos, já perguntava nas Sátiras o que impede alguém de dizer a verdade rindo. Em Rei Lear, de Shakespeare, a filha honesta e o conselheiro franco pagam caro por falar sério com o rei, enquanto o Bobo diz verdades parecidas em forma de piada e continua ao lado dele.
E Chaplin, autor ou não da frase, é um ótimo caso pra pensar no assunto, menos pelo que dizem que ele disse e mais pelo que ele fez com a própria história.
O menino que riu da ovelha e depois chorou
Charles Spencer Chaplin nasceu em Londres, em 1889, filho de dois artistas de music hall, o teatro de variedades popular da época. O pai bebia, sumiu cedo e morreu quando o menino tinha 12 anos. A mãe, Hannah, cantora, foi perdendo a voz e a saúde, e a família foi descendo de quarto alugado em quarto alugado. Aos 7 anos, Charlie e o irmão mais velho, Sydney, passaram por uma workhouse no sul de Londres, o asilo onde famílias pobres eram abrigadas e separadas, e de lá foram mandados a uma escola para crianças pobres. Hannah foi internada mais de uma vez em hospital psiquiátrico.
Ele conta tudo isso em Minha vida (My Autobiography, de 1964), e uma das lembranças dessa época ajuda a entender o resto. Perto de casa havia um matadouro, e as ovelhas passavam pela rua a caminho dele. Um dia, uma escapou e saiu correndo em pânico enquanto as pessoas tentavam pegá-la. A rua inteira riu, e o pequeno Charlie também. Até que a pegaram e a levaram de volta, e ele entendeu o que ia acontecer com ela. Correu pra casa aos prantos. Décadas depois, escreveu que talvez aquela cena tivesse plantado a premissa dos filmes que ele faria: a mistura do trágico com o cômico.
Essa mistura está em quase tudo. O garoto, de 1921, o primeiro longa que ele dirigiu, abre com uma cartela que promete um filme com um sorriso e, talvez, uma lágrima. Tem uma cena em que funcionários tentam levar o menino do título para um orfanato, e não precisa ser biógrafo pra ouvir o eco da workhouse. Em Em busca do ouro, de 1925, a cena em que o vagabundo, faminto, cozinha a própria bota e enrola o cadarço no garfo feito espaguete nasceu de uma história real e terrível de pioneiros presos na neve. Comentando o filme na autobiografia, ele escreveu:
Precisamos rir diante do nosso desamparo contra as forças da natureza, ou perder o juízo.
— Charles Chaplin, My Autobiography (tradução nossa)
No Dicionário da Cabeça, o humor é uma defesa (e das boas)
Verbete do dia: mecanismo de defesa. É o nome que a psicanálise deu aos jeitos, quase sempre automáticos e fora da nossa percepção, que a mente usa pra lidar com o que dói, assusta ou envergonha. Negar, esquecer, pôr a culpa no outro, arrumar uma explicação lógica para o que foi emoção. E rir.
Freud escreveu um livro inteiro sobre piadas em 1905 e voltou ao assunto em 1927, num ensaio curto chamado “O humor”. Ali aparece a história de um condenado que, levado à forca numa segunda-feira, comenta que a semana está começando bem. Para Freud, essa é a grandeza do humor: o eu se recusa a se deixar esmagar pela realidade e, por um instante, transforma o que ameaça em motivo de prazer. O humor, ele escreve, não é resignado. É rebelde.
Décadas depois, o psiquiatra americano George Vaillant, por muitos anos à frente de um estudo que acompanhou homens de Harvard da faculdade à velhice, organizou as defesas numa espécie de escada, das mais imaturas às mais maduras. O humor ficou lá em cima, ao lado do altruísmo, da antecipação e da sublimação (canalizar um impulso pra algo valorizado, como arte ou trabalho). No livro Adaptation to Life, de 1977, o humor maduro é o que permite dizer o que se sente sem travar e sem machucar ninguém.
Escudo ou esconderijo: os quatro jeitos de fazer graça
Só que nem todo humor faz a mesma coisa, e foi isso que o psicólogo canadense Rod Martin e colegas mapearam em 2003, num questionário que virou referência na área. Eles separaram quatro estilos:
- Afiliativo: a piada que junta as pessoas e desarma a tensão. O tio do grupo da família.
- De autovalorização: olhar a vida com graça mesmo quando ela não colabora, como rir sozinho do absurdo da fila do banco. É o que mais aparece ligado a lidar bem com o estresse.
- Agressivo: o sarcasmo que diminui, a zoeira que só tem graça pra quem não é o alvo.
- Autodepreciativo: fazer de si mesmo a piada pra ser aceito, rir junto quando riem de você, esconder o que sente atrás da tirada.
No estudo original e em muitos que vieram depois, os dois primeiros aparecem ligados a mais bem-estar e autoestima; o agressivo, a mais hostilidade; e o autodepreciativo, a mais sintomas de ansiedade e depressão. São correlações (mostram que as coisas andam juntas, não o que causa o quê), medidas por questionário e com diferenças entre culturas. Mas o desenho geral se repete bastante.
Repara que rir de si mesmo não é o problema. Este caderno vive disso. A diferença está no endereço: rir da situação em que você se meteu é uma coisa; se oferecer sempre como alvo, pra garantir que ninguém chegue antes, é outra.
Fleabag, a série de Phoebe Waller-Bridge, é um bom espelho. A protagonista vira pra câmera e faz piada com a gente o tempo todo, e é impossível não rir junto. Aos poucos, a série deixa a gente perceber que aquelas tiradas também são uma porta fechada: um jeito de falar com a plateia pra não ter que falar de verdade sobre o luto com ninguém. Então a pergunta que interessa é outra: a piada abre caminho pra conversa ou ocupa o lugar dela?
Rir de quem manda (e saber onde a graça acaba)
O humor também pode ser resistência. Em 1940, com os Estados Unidos ainda fora da guerra, Chaplin lançou O grande ditador, em que transforma Hitler em Adenoid Hynkel, um tirano ridículo que dança com um globo terrestre que é, literalmente, um balão. Rir do poderoso é um jeito antigo de tirar dele um pouco da aura.
E o próprio Chaplin reconheceu o limite. Na autobiografia, escreveu que, se soubesse dos horrores reais dos campos de concentração, não teria conseguido rodar o filme nem fazer graça com a barbárie nazista.
Do lado de dentro desses campos, o psiquiatra austríaco Viktor Frankl, que sobreviveu a eles, escreveu em Em busca de sentido (1946) que o humor era mais uma das armas da alma na luta pela autopreservação. Ele conta que combinou com um amigo de inventar, todo dia, pelo menos uma história engraçada sobre algo que poderia acontecer depois da libertação. Ninguém ali negava o horror. A piada servia pra conseguir, nem que fosse por alguns segundos, ficar um passo acima dele.
Tragédia em close, comédia em plano geral
Tem outra frase que circula em nome de Chaplin, e essa também vai pro caderno com a fita meio solta, porque a origem exata é difícil de cravar: a vida é uma tragédia vista em close e uma comédia vista em plano geral. Seja de quem for, ela descreve bem o que o humor faz quando funciona. Ele não muda a cena. Muda a distância da câmera.
Às vezes a gente precisa desse plano geral pra conseguir respirar: a piada no velório, a figurinha no grupo, o atestado pra não lavar louça. O problema começa quando a câmera nunca mais chega perto, quando toda dor vira esquete e ninguém, nem você, consegue ver o seu rosto em close.
Pra tentar hoje
Na próxima vez que você fizer piada com alguma coisa difícil, experimente acrescentar uma frase sem graça nenhuma, pra alguém de confiança: “mas, falando sério, tá pesado”. Uma frase basta. Se a piada virou o único jeito de chegar perto de certos assuntos, isso é ótimo material pra terapia, e tá tudo bem procurar.
Na cena lá do começo, a gente aposta que o tio da piada do atestado é o primeiro a chegar ao hospital no dia da cirurgia. A piada era o jeito dele de dizer “tô aqui”. Chegar é o resto da frase.