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Caderno Cultura no DivãRecorte nº 003

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Brilho Eterno: se desse pra apagar alguém da memória, você apagaria?

O filme de Michel Gondry e Charlie Kaufman fala menos de esquecer um amor e mais do que a gente faria com a dor se pudesse deletá-la. A ciência da memória ajuda a entender por que talvez não devesse.

  • leitura de 2 cafés (9 minutos)
  • Série Pipoca & Divã
  • 12 fontes

Aviso de conteúdoEste recorte fala de temas que podem mexer com você. Leia no seu ritmo. Se precisar, o CVV atende 24h pelo 188.

Alerta de spoiler

Este recorte conta detalhes da história, inclusive do final. Se ainda não viu, guarda o link pra depois.

o que a borracha não pega

Primeiro vai a conversa. Você arquiva, porque apagar parece definitivo demais. Depois, as fotos: umas somem, outras vão pra uma pasta chamada “2023”, como se o celular fosse cair nessa. Você silencia os stories e muda o caminho do trabalho pra não passar na padaria onde vocês tomavam café no sábado. Aí, numa terça qualquer, o aplicativo de fotos te mostra uma “lembrança de três anos atrás”, com musiquinha de fundo.

Se nessa hora existisse uma clínica que tirasse essa pessoa da sua cabeça numa noite só, com hora marcada e sem dor, você ligava?

É a pergunta de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, de 2004. E o filme complica: não quer saber só se você esqueceria alguém. Quer saber o que mais iria embora junto.

Em 2020, quando o caderno ainda era só um perfil no Instagram, um dos primeiros posts dizia que esse era o filme preferido da casa. A gente reviu pra este recorte, com lenço do lado. Continua sendo.

Uma clínica que apaga gente com hora marcada

Joel Barish (Jim Carrey, contido, a anos-luz das caretas de O Máskara) é tímido e escreve diário. Clementine Kruczynski (Kate Winslet) é o contrário: impulsiva, engraçada, com uma cor de cabelo pra cada fase. Depois de uma briga feia, Joel descobre que ela não o reconhece mais. Clementine passou pela Lacuna Inc., uma clínica que apaga da memória uma pessoa específica. Magoado, ele marca o mesmo serviço, feito em casa, durante uma noite de sono, por dois técnicos nada solenes (Mark Ruffalo e Elijah Wood). O roteiro de Charlie Kaufman, sobre uma história dele, do diretor Michel Gondry e do artista francês Pierre Bismuth, deu aos três o Oscar de roteiro original em 2005.

O título vem de Eloisa to Abelard, poema de 1717 do inglês Alexander Pope: uma carta imaginada de Heloísa, a francesa do século XII que viveu um amor proibido com o próprio professor, o filósofo Pedro Abelardo, e terminou num convento sem conseguir esquecê-lo. Num trecho, ela inveja a freira sem culpa, que esqueceu o mundo e foi esquecida por ele:

Eternal sunshine of the spotless mind! (Brilho eterno da mente sem mancha!)

— Alexander Pope, Eloisa to Abelard

O título brasileiro fez uma troca esperta. Em Pope, a mente é spotless, sem mancha e sem culpa. Aqui, ela virou uma mente sem lembranças, e faz sentido: o filme inteiro desconfia que mancha e lembrança são quase a mesma coisa.

Quem recita o verso é Mary (Kirsten Dunst), recepcionista da clínica e colecionadora de citações. Ela também sabe de cor um Nietzsche de Além do bem e do mal que chama de felizes os esquecidos. Guarda essa moça, que ela volta.

Lembrar é remontar a cena

A Lacuna trata a lembrança como arquivo de computador: acha a pasta “Clementine”, arrasta pra lixeira, esvazia. A psicologia desconfia dessa imagem há quase um século.

Em 1932, o psicólogo britânico Frederic Bartlett pediu a estudantes de Cambridge que recontassem uma lenda indígena norte-americana, A guerra dos fantasmas, de novo e de novo, com intervalos cada vez maiores. A história encolhia e ficava parecida com o mundo de quem lembrava: o estranho sumia ou virava familiar. Lembrar, concluiu Bartlett, se parece menos com tirar uma cópia da gaveta e mais com reconstruir a cena a cada vez. E a reconstrução aceita peça de fora: em 1974, Elizabeth Loftus e John Palmer mostraram que trocar “bateram” por “se esmagaram” numa pergunta sobre um acidente filmado fazia mais gente lembrar de vidro quebrado. Não tinha vidro nenhum.

Agora, a parte que soa como documentário. Em 2000, Karim Nader, Glenn Schafe e Joseph LeDoux ensinaram ratos a temer um som associado a um choque leve. Depois reativavam a lembrança tocando o som e, logo em seguida, aplicavam na amígdala (região do cérebro ligada ao medo) uma substância que bloqueia a fabricação de proteínas. Esses ratos passaram a temer bem menos o som; os que receberam a substância sem relembrar, não. A conclusão: uma memória, quando lembrada, fica maleável por um tempo e precisa ser guardada de novo. Esse regravar se chama reconsolidação. Lembrar, então, também é mexer.

Em 2008, a equipe de Alain Brunet, no Canadá, levou a ideia a pessoas com transtorno de estresse pós-traumático: logo depois de descreverem o trauma, umas tomavam propranolol (remédio de pressão que atenua a reação do corpo ao estresse), outras, placebo. Uma semana depois, ao reimaginar a cena, o primeiro grupo reagia com menos sinais físicos de estresse. Repara no que não aconteceu: ninguém esqueceu nada. O que diminuiu foi o peso da lembrança no corpo. O estudo era pequeno, os seguintes deram resultados mistos, e isso é pesquisa sobre trauma, com acompanhamento médico. Não é remédio pra coração partido, nem pra testar por conta própria.

Mexer no quanto uma lembrança pesa já é ciência. Apagar uma pessoa inteira, com cheiro, piada interna e caminho da padaria, continua sendo ficção.

Por que um término dói no corpo

Quem já levou um fora sabe que a dor não é força de expressão. Em 2010, a antropóloga Helen Fisher e colegas puseram numa ressonância magnética pessoas recém-deixadas e ainda apaixonadas. Diante da foto de quem foi embora, o cérebro delas ativava regiões de recompensa e desejo, as mesmas que aparecem em estudos sobre dependência. Daí a comparação com abstinência, que ajuda a entender por que o dedo vai sozinho até o perfil que você jurou não abrir.

No ano seguinte, Ethan Kross (o mesmo do recorte nº 004) e colegas viram que reviver a rejeição acendia regiões em comum com as de um calor dolorido no braço. Uma análise posterior, com técnicas mais finas e Kross entre os autores, mostrou que as regiões se sobrepõem, mas os padrões de atividade dentro delas são diferentes: o cérebro distingue uma dor da outra. Coração partido não é metáfora vazia. Também não é dor de dente.

E tem a parte que ressonância nenhuma mostra. Em 2010, Erica Slotter, Wendi Gardner e Eli Finkel viram que, depois de um término, as pessoas descreviam um eu mais confuso e encolhido, e que essa confusão vinha junto com mais tristeza. Os amigos em comum, a série de vocês, a piada que só funcionava a dois: um pedaço de você foi construído em dupla. Um apagamento à moda da Lacuna levaria esse pedaço junto.


Alerta de spoiler: daqui pra baixo, o recorte conta o filme inteiro, inclusive o final.

A casa que desaba na praia de inverno

O filme abre com Joel matando o trabalho pra pegar um trem até Montauk, praia gelada na ponta de Long Island, onde conhece Clementine. Só bem mais tarde a gente entende que essa manhã vem depois do apagamento. Alguma coisa levou Joel até aquela praia, e não foi a memória.

Dentro da cabeça dele, o apagamento anda de trás pra frente. Primeiro somem as brigas e o tédio, e Joel assiste aliviado. Só que, quanto mais o processo recua, melhores ficam as lembranças: os dois deitados no gelo do rio Charles, uma cama no meio da areia. Joel desiste no meio do caminho, mas está dormindo e não tem como avisar os técnicos. Então foge com Clementine pra dentro da própria cabeça e esconde a lembrança dela onde ela nunca esteve: na infância, debaixo da mesa da cozinha, ou em vergonhas que nunca contou a ninguém. Pra salvar uma lembrança, Joel precisa misturá-la com outras. Não adianta. A Lacuna acha.

Enquanto isso, Mary descobre que já teve um caso com o chefe, o dr. Mierzwiak (Tom Wilkinson), e apagou essa história na própria Lacuna. Revoltada, ela manda a cada paciente a fita que o próprio paciente gravou antes do procedimento.

A última lembrança a cair é a primeira: a noite em que os dois se conheceram, numa festa na praia. Dessa vez, enquanto a casa de veraneio se desmancha em volta, eles conseguem se despedir, e ela deixa um endereço pro reencontro: Montauk.

O luto feito à mão, lembrança por lembrança

Em 1917, no ensaio Luto e melancolia, Sigmund Freud descreveu o luto como um trabalho. Quando alguém que a gente ama sai da nossa vida, a realidade avisa que acabou, mas o afeto não obedece na hora. Ele vai se desprendendo aos poucos, lembrança por lembrança, cada uma revisitada uma última vez, com muito gasto de tempo e energia. Freud achava inútil, e até prejudicial, atrapalhar esse processo. De fora, parece que a pessoa está parada. Está trabalhando.

Tem uma ironia aí. A Lacuna vende um atalho, e o apagamento acaba fazendo justamente o trabalho do luto, só que à força e numa noite: Joel revisita cada lembrança uma última vez antes de ela sumir, das piores às melhores, e é nesse percurso que faz as pazes com a história inteira. O que ele queria pular era o próprio caminho de saída.

Tudo bem, mesmo sabendo

No fim, Joel e Clementine, recém-reencontrados, recebem as fitas de Mary, e cada um ouve a própria voz listando, com a precisão de quem conhece de perto, tudo o que não suporta no outro. Clementine avisa que vai dar errado de novo: ele vai encontrar defeitos nela, ela vai se entediar. Joel pensa um segundo e aceita. Ela também, e os dois riem. A última imagem mostra os dois brincando na neve da praia, uma cena que se repete como disco arranhado.

Dá pra ler esse final como pessimismo: sem memória, eles vão repetir tudo. A gente prefere outra leitura. Eles escolhem de novo sabendo o preço, com a lista de defeitos tocando alto na sala, e isso tem um nome menos romântico que destino, e bem mais difícil: aceitação. Fora da tela, aceitar não pede reconciliação com ninguém. Pede olhar pra uma história inteira, com o que foi bom e o que doeu, e deixar que ela tenha acontecido. Sem apagar e sem morar nela.

Entre apagar e guardar

Tirar da frente não é apagar. Arquivar a conversa, silenciar o perfil, guardar as fotos pra outro dia: distância também é cuidado.

Deixe o “apagar tudo” pra depois. O que a gente deleta no pior dia nem sempre é o que queria perder.

Faça o luto com companhia. Contar a história pra alguém de confiança, quantas vezes precisar, também é revisitar lembrança por lembrança.

Se o peso não alivia com o tempo, ou atrapalha sono, rotina e fome, terapia é um bom lugar pra esse trabalho. O recorte nº 005 ajuda a começar.

Se você está no meio disso agora, com a pasta “2023” no celular e o caminho mais comprido até o trabalho, tá tudo bem. Ninguém precisa decidir hoje o que guarda e o que joga fora. A Lacuna não existe. Sobra o jeito antigo, sem efeito especial nenhum: um dia de cada vez, com gente por perto, até a lembrança caber em você sem ocupar a casa toda.

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