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Caderno MiudezasRecorte nº 002

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Por que eu não consigo fazer o que eu preciso fazer?

Procrastinar não é preguiça nem defeito de caráter. Muitas vezes é o jeito desajeitado que a cabeça encontra de fugir de uma emoção ruim, e com emoção dá pra negociar.

o “fazer hoje” que virou amanhã

São 23h12. A tarefa leva vinte minutos, vinte e cinco se a internet cair. Pode ser um orçamento, um formulário, o e-mail marcado com estrelinha desde a semana passada. Digamos que seja uma planilha. Desde as oito da noite, você já reorganizou a playlist, lavou a louça (inclusive a panela que estava de molho desde domingo), respondeu a três grupos e assistiu a um vídeo inteiro sobre polvos. Agora você sabe que eles têm três corações. A planilha continua lá, numa aba aberta, com o cursor piscando feito alguém batendo o pé.

Então chega a parte mais cruel do roteiro: a voz que pergunta “qual é o seu problema?”. Porque você sabe que é rápido. Sabe que amanhã vai ser pior. Sabe tudo. E mesmo assim não vai.

Se serve de consolo, a própria palavra já nasceu sabendo disso. Procrastinar vem do latim procrastinare, que junta pro (pra frente) e crastinus (de amanhã). Empurrar as coisas pro dia seguinte já tinha verbo há uns dois mil anos. A gente não inventou nada; só ganhou mais abas.

O problema não está no relógio

Durante muito tempo, procrastinação foi tratada como assunto de agenda: falta de organização, de disciplina, de um aplicativo de tarefas mais bonito. A pesquisa das últimas décadas levou a conversa pra outro canto. Num artigo de revisão de 2013, os psicólogos Fuschia Sirois e Timothy Pychyl, dois dos nomes mais citados no tema, defendem que a gente adia porque coloca o humor de agora na frente de todo o resto. Procrastinar, nessa leitura, é um problema de regulação emocional, não de gestão do tempo.

Regulação emocional é o jeito como a gente lida com o que sente: aumentar, diminuir, evitar, aguentar. E certas tarefas acordam coisas que ninguém quer sentir às onze da noite. Tédio. Medo de fazer malfeito. Insegurança (“e se eu não souber?”). Aquela irritação difusa de ter que fazer uma coisa que você nem escolheu. Adiar resolve tudo isso na hora, com uma eficiência admirável: fechou a aba, o desconforto foi embora. O alívio é real, e é justamente por isso que a armadilha funciona tão bem.

O detalhe é que alguém paga a conta, e esse alguém é você amanhã. Sirois e Pychyl dão muita atenção a esse “eu do futuro”, e um estudo de 2009 ajuda a entender por que é tão fácil passar a bola pra ele. Hal Ersner-Hershfield e colegas colocaram universitários num aparelho de ressonância e pediram que pensassem em si mesmos hoje e daqui a dez anos. Quanto mais diferente o cérebro tratava essas duas versões, mais a pessoa preferia, numa tarefa separada, ganhar menos dinheiro agora a ganhar mais depois. É um estudo de laboratório, sobre dinheiro e não sobre tarefas, então nada de tirar lei disso. Mas o Homer Simpson já tinha resumido o espírito da coisa numa piada famosa: aquilo é problema do Homer do futuro, e ele, sinceramente, não inveja o coitado.

O alívio de hoje cobra juros

Em 1997, os psicólogos Dianne Tice e Roy Baumeister acompanharam estudantes universitários ao longo de um semestre. No começo, quem procrastinava estava até melhor que os colegas: relatava menos estresse e menos sintomas de doença. Faz sentido, já que o trabalho ainda nem tinha começado a pesar. Perto do fim do semestre, o quadro se inverteu. Os procrastinadores passaram a relatar mais estresse e mais sintomas, e tiraram notas mais baixas. No balanço, o fôlego do começo não pagou o sufoco do final.

É a lógica do cartão de crédito: a compra é hoje, a fatura chega depois, com juros. Ninguém está dizendo que você não sabe fazer conta. O ponto é que, às 23h12, a fatura parece uma abstração e o desconforto parece muito, muito concreto.

Uma equação que cabe num guardanapo

Dez anos depois, em 2007, o psicólogo Piers Steel publicou uma meta-análise (um estudo que reúne e reanalisa muitos outros) sobre procrastinação. Entre os fatores que apareceram com mais força e consistência, quatro viraram o centro da teoria dele: o quanto a tarefa é desagradável, o quanto o prazo está longe, a confiança da pessoa em dar conta e a impulsividade. Steel organizou esses quatro numa fórmula, que dá pra traduzir mais ou menos assim:

vontade de fazer agora = (quanto você acredita que dá conta × quanto aquilo vale pra você) ÷ (quanto você se distrai × quanto falta pro prazo)

Pense na declaração do imposto de renda. Em março, ela parece complicada (você não confia muito que vai acertar) e chata (vale pouco, ou até vale negativo), e o prazo, lá no fim de maio, está longe que só. A parte de cima da fração é pequena; a de baixo, enorme. Conforme maio avança, a distância encolhe, a conta muda de figura e, no último dia, você se torna a pessoa mais motivada do Brasil. Não foi o seu caráter que mudou em dois meses. Foi a equação.

Quem viu a palestra que o escritor Tim Urban deu no TED em 2016 vai reconhecer os personagens: um tomador de decisões racional que tenta dirigir, um macaco da gratificação instantânea que vive roubando o volante dele e um monstro do pânico que só acorda quando o prazo chega perto. A imagem é ótima e explica a fórmula de Steel melhor que muito gráfico. Urban ainda faz uma observação que merece grifo: o adiamento mais traiçoeiro é o das coisas que não têm prazo nenhum, como cuidar da saúde ou mudar algo importante na vida, porque nelas o monstro do pânico nunca aparece pra salvar a gente. Na fórmula, é a distância do prazo que nunca diminui.

Negociar com a emoção, em vez de brigar com ela

Se o problema é o desconforto, o plano não pode ser “força de vontade e pronto”. Pode ser deixar o começo mais leve. Algumas ideias pequenas, com graus diferentes de evidência:

  • Encolher a tarefa até ela ficar quase ridícula. “Fazer o relatório” assusta. “Abrir o arquivo e escrever o título” não assusta ninguém. Muita gente nota que o pior da tarefa mora na antecipação e que, depois do primeiro passo, ela pesa menos do que parecia.
  • Planejar com “se... então”. O psicólogo Peter Gollwitzer chamou isso de intenção de implementação, um plano que já diz quando, onde e o quê: em vez de “vou estudar mais”, decidir “se eu terminar o almoço, então abro o livro na mesa da cozinha”. Parece bobo. Uma meta-análise de 2006, feita por ele e Paschal Sheeran com quase cem estudos, encontrou um efeito de tamanho médio a grande sobre o cumprimento de metas, o que em psicologia é bastante coisa.
  • Tirar o atrito do caminho. Deixar o arquivo aberto antes de dormir, o tênis do lado da porta, o celular em outro cômodo. É mexer na impulsividade da fórmula sem precisar virar outra pessoa.
  • Combinar só dois minutos. Esse é truque de bolso, não achado de laboratório: você começa por dois minutos e, se quiser parar, para. Às vezes para mesmo. Às vezes não.

Bronca não ajuda. Perdão, sim

Agora a parte que costuma surpreender. Em 2010, Michael Wohl, Timothy Pychyl e Shannon Bennett acompanharam calouros universitários entre duas rodadas de provas. Quem tinha se perdoado por procrastinar os estudos da primeira rodada procrastinou menos na preparação para a segunda. E o caminho passava pelas emoções: o perdão diminuía o mal-estar ligado à prova anterior, e com menos mal-estar havia menos coisa da qual fugir. Os autores resumiram tudo no título do artigo, que em bom português seria algo como “eu me perdoo, agora consigo estudar”.

I forgive myself, now I can study.

— Wohl, Pychyl & Bennett, título do estudo (2010)

Faz sentido quando a gente volta à tese do começo. Se o adiamento é fuga de uma emoção ruim, a bronca interna (“você é um desastre, sempre faz isso”) só aumenta a pilha de emoção ruim, que é exatamente o que dá vontade de evitar. A autocrítica pesada vira combustível pro próximo adiamento.

Perdoar a si mesmo, aqui, tem pouco a ver com passar pano: é reconhecer que adiou, assumir o custo, entender o que pegou e virar a página. Sobre o tamanho da evidência: é um estudo com universitários, numa situação específica, e boa parte das pesquisas posteriores sobre autocompaixão e procrastinação é correlacional (mostra que as duas coisas andam juntas, não que uma causa a outra). Mesmo assim, a direção dos achados é animadora, e testar não custa nada.

Pra preencher a lápis, hoje

A tarefa que eu estou adiando é __________, e ela me faz sentir __________.

O menor passo possível é __________ (algo que caiba em dois minutos).

Se __________ (uma hora, um lugar, uma situação), então eu __________.

Se não rolar hoje, perdoa o você de hoje e deixa o “se... então” pronto pro de amanhã.

Quando a trava é maior que a tarefa

Todo mundo procrastina de vez em quando. Mas tem trava que é mais do que procrastinação, e ela merece um olhar mais cuidadoso. Se a dificuldade de começar vem junto com uma tristeza que não passa, perda de interesse por coisas que antes davam prazer, cansaço constante ou mudanças no sono, isso pede uma conversa com um profissional de saúde mental. O mesmo vale pra uma dificuldade antiga, que acompanha você desde a escola, de manter a atenção, se organizar e terminar o que começa.

Nada disso é diagnóstico (a gente não faz, e texto nenhum deveria fazer), e teste de internet também não resolve. A ideia é outra: se a trava parece grande demais pra ser só o macaco do Tim Urban, procurar ajuda é uma decisão sensata, não um fracasso. Psicólogos e psiquiatras podem avaliar com calma, e no SUS a porta de entrada é a Unidade Básica de Saúde mais perto de você (o recorte nº 005 conta como começar).


Este recorte tem um irmão mais velho em vídeo, lá no canal. Ele está logo depois do texto, pra quem prefere ouvir a conversa em voz alta ou gosta de ter as duas versões.

E a planilha? Vai continuar lá amanhã, com o cursor piscando. Talvez hoje dê pra abrir o arquivo e escrever o título. Talvez não, e tudo bem também: fecha o computador, vai dormir e, amanhã, recebe o você do futuro do jeito que receberia um amigo que veio pedir ajuda. Sem sermão. Com café.

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